ESPINHOS DA FLOR VALEU À PENA DIZ TOM
Por Gleideston Rodrigues*
Fui apresentado ao escritor Antonio Saracura, primeiro
através da sua obra Os Tabaréus do Sítio Saracura, que li anos atrás. Naquela
época eu morava em Brasília e, em férias em Aracaju, adquiri o livro e levei
comigo para ler por lá. Fiquei encantado com a leitura, principalmente pela
forma quase coloquial da escrita e da narrativa. Pareceu-me uma conversa entre
amigos que rememoravam coisas de um tempo precioso de suas vidas. Agora, depois
de tantos anos, o conheci pessoalmente e dele recebi seu mais novo romance, Os
Espinhos da Flor. E ainda com o privilégio do autógrafo!
De antemão, confesso que foi prazeroso atravessar - com a
permissão dos personagens, as porteiras do tempo, para seguir o caminho do
casal Romo e Flor.
A trama do romance percorre a vida desse casal e de seus
familiares, desde o momento em que se conheceram ainda muito jovens lá pelas
cercanias de Itabaiana. À primeira vista, trata-se de um romance de memórias,
entremeado de uma construção ficcional de falas e de ações. Assim, no decorrer
do enredo, o leitor torna-se um observador onisciente que acompanha as
desventuras vividas por Flor ao longo dos anos de convívio com Romo, o seu
marido turrão, filhos e netos. Ela é a personagem contadora dessa história. Por
isso, a narrativa, em grande parte, é feita em primeira pessoa. São os seus
momentos de confessionário, nos quais revela os sonhos perdidos de uma vida
feliz e os percalços da vida de casada. O leitor é agora seu confidente.
É um romance carregado de humanidade, porquanto repleto de
sentimentos, muitas vezes antagônicos, como é a vida de seus personagens:
momentos alegres e tristes, de amor-ódio, compaixão-inveja, ciúmes, mas também
de sátiras e irreverências, qualidades intrínsecas às atitudes da protagonista.
Nesse particular, mesmo as tragédias cotidianas se transformam em situações
cômicas, que levam o leitor a dar boas risadas durante o processo de leitura.
Mas não se engane com essas amenidades, pois a trama recrudesce num crescendo
de conflitos e aflições à medida que a passagem dos anos acentua o
envelhecimento e as fragilidades que daí decorrem. Até chegar ao clímax, quando
algo emblemático acontece: com a chegada da velhice, Flor e Romo vão perdendo a
memória e, paulatinamente, adentram o mundo do esquecimento.
Para além dessas questões existenciais, o romance possibilita
ao leitor uma visão pitoresca do espaço-tempo onde a trama se desenrola. É o
caso das ruas do bairro Santo Antônio e de estabelecimentos comerciais dessas
localidades, muitos dos quais já não existem. Também elementos do contexto
social da época, seus costumes e modos de ser, boas e más condutas nem sempre
bem vistas pelas famílias, como as escapadas de Romo para a praça do Cemitério
Santa Izabel em busca de “diversão”. Tais relatos faz o romance transitar entre
o ficcional e o testemunho de um tempo perdido, que, por agora, é redimido
através da pena do escritor.
Contudo, o que é mais importante sublinhar dessa epopeia
familiar, é a estranha esgrima que se estabelece desde o princípio entre Flor e
Romo. Ela, descendente dos Ferreiros, que eram “cordiais e festeiros”. Ele, dos
Saracuras, “capitalistas, de falar e agir contidos”. Essas diferenças atávicas
entre eles, que somem e ressurgem em a todo instante, parece ser o Fio de
Ariadne que opera a tessitura do romance. Isso eleva a narrativa a um nível de
suspense extasiado do começo ao fim. Flor é aquela mulher, em “estado de
oxímoro”, no dizer de Dal Farra (2025). Ela é, e às vezes não é. Só depende das
suas próprias vontades. Algumas vezes doce, noutras, férrea. Por isso, não
sucumbe às imprecações do rude companheiro. Ela é, ao mesmo tempo, flor e
espinho. É metafórica. Quem suporia uma conciliação entre seres tão dispares?
Isso o leitor só saberá no final do livro.
Esse novo romance do Antonio Saracura, pela leveza de sua
escrita e pelo lirismo como aborda com sutileza questões complexas da
existência, tomando como ponto de partida personagens fictícios (ou não!), nos
arrebata pela singeleza e pela possibilidade que dar ao leitor de refletir
sobre a condição humana.
Valeu a pena, Saracura!
*Membro da Academia Riachãoense de Letras, Artes e Cultura18/06/2026,
21:17:17] Tom Academia de Letras do Riachão: Olá, Saracura!
Eis aí umas coisas que escrevi sobre o seu livro.
Gostei muito!
Até!
[19/06/2026, 14:32:46]
Antonio Saracura: “Algumas coisas…” que
gratificam e mostram sua bondade comigo.
Bastava um único leitor assim como Tom, para ter valido a
pena escrever.
Bastava um 👍,
mas você me prestigia com uma análise
completa da alma do livro, da alma dos personagens… da alma de nosso
povo.
Obrigado, Tom
[19/06/2026, 14:39:11]
Antonio Saracura: Um simples obrigado? estou aqui gaguejando mil palavras, mas entenda como uma festa que
nada consegue verbalizar tão bem sem se
perder, por isso. o seco e poderoso “Obrigado, amigo”. .Bom final de semana!
[19/06/2026, 14:45:53]
Tom Academia de Letras do Riachão: Obrigado, querido!
Até breve!

















