quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

UMA MULHER COM ASAS DE PALHA, Ednalva Freire

 UMA MULHER COM ASAS DE PALHA


Naquele que o próprio autor anuncia como sendo seu último romance, Saracura se apresenta com uma linguagem poética que ele utiliza de forma muito apropriada, buscando nas raízes profundas da Terra Vermelha o significado das palavras e dos gestos que ele pretende resgatar como um compromisso de memória que ele registra para não deixar se perder.

Vidas que se cruzam e se entrelaçam, lugares que percorre como se carecesse trazer de volta a infância, um sonho contido que permeia a vida de todos nós e que parece agigantar-se na velhice quando, segundo ele, a solidão se torna companheira inseparável. É uma história de família protagonizada por Flor. Colhida aos dezoito anos de idade, o jardineiro que lhe devia admiração, amores e cuidados a aprisiona e a maltrata porque, como ela acaba declarando em sua velhice como forma de absolvição, "ele percebeu que se me desse espaço eu o ocuparia de imediato".

Flor e Romo se casam no final dos anos trinta do século passado e criam juntos doze filhos. A lida na roça envolve o trabalho com a terra e a criação dos bichos. A junção desses dois elementos são a garantia de boa nutrição para uma família tão prolífera e ainda suficiente para manter vivo um ou outro sonho. O mais comum, para aqueles que tiram da terra tudo aquilo que ela nem sempre pródiga pode lhes dar, é criar os filhos na cidade grande onde os estudos lhes garantirão um futuro melhor. É o que alimenta Flor já que Romo muitas vezes a fez "chorar sozinha, presa num armador de rede " ou quando ele "me empurrou para dentro de casa, amarrou meus pés e mãos, me trancou na camarinha escura". A cidade grande além de ser melhor para os filhos pode ser uma libertação para Flor. Ela já se conformara em ficar quieta, em não alçar voos. Ela já sabia que as suas asas que teimavam em crescer na sua imaginação, eram de palha. Como Ícaro, se voasse muito alto poderia se esborrachar no chão.

Caminhar era preciso.

Muitas mulheres aprendem a viver de silêncios como resistência, quando a voz. por falta de uso e de escuta, engasga as vontades e elas sequer a usa como desafio ou como arma.

Bem estabelecidos em Aracaju, filhos criados e bem-postos, a vida prepara uma armadilha pra Romo. A memória começa a lhe confundir as coisas. Mas mesmo quando a memória falha, o instinto de submeter Flor permanece sob as mais variadas formas das quais nem mesmo ele se dá conta, mas que ferem na mesma medida do passado.

Pode não ser proposital, mas é cruel do mesmo jeito. Por fim, Romo a expulsa de casa sem qualquer aviso. Apenas troca o cadeado e a deixa na rua. Os filhos a acolhem com cuidados e muito carinho.

Eles são o bálsamo da sua vida.

Quando Romo fica extremamente debilitado, Flor manda que os filhos o tragam para sua casa com toda a equipe de cuidadores. Será minha vingança às avessas, ela declara. "Guardarei as flechas silenciosas na aljava e sussurrarei ao ouvido dele cada mágoa que me causou na vida".

Assim que Flor completou 81 anos, Romo, que lhe cravara tantos espinhos desde os 18 anos, com essa cabala cruel a libertou. Agora ela pode finalmente cultivar as suas asas. Lembra-se com carinho da tia Valentina, aquela que quebrou imagens, estraçalhou tabus e encantou as cabeças das meninas que a conheceram. Não esperava autorização, ela mesma fazia. Tia Valentina sempre usou as suas asas.

A partir desse momento Flor se abre para a vida de forma intensa. Nas festas de família agora agigantada com tantos filhos e netos ri desbragadamente, deixando que toda a sua alegria de viver se espraie como um rio a desaguar livre. Em um desses momentos que serão muitos, seu filho Vito, tão sonhador quanto ela, se encanta com o brilho dos seus olhos verdes e os elogia, ao que ela responde sem se engasgar com as próprias palavras que agora lhes são libertas; "olhos verdes de raiva profunda, baços de dor recolhida".

(Por Ednalva Freire Caetano- Pedagoga e Mestre em Educação pela UFS, em Brasília, 2025dez08)

(Saracura, em 2025dez08)

Bom dia, professora Ednalva!

Estou aqui sorrindo, contente, grato. Sua resenha sobre “Os Espinhos da Flor” sustou mil apreensões que me atribulavam, que sempre  me maltratam em todo lançamento.

Desci  à planície, estou em paz agora. E me sinto forte para menosprezar os deslizes (escaparam vírgulas fora do lugar e outros bugs invisíveis até o livro pronto), para acatar sereno os silêncios…

Já havia recebido notícias de que leitores concluíram a leitura, mas eu precisava de alguém que falasse dela.

E vem você sentindo  as dores e as alegrias desta flor,  que não merecia ter espinho  ou dor nenhuns.

Como não sei como agradecer, faltam-me as palavras, então o faço com o “Muito Obrigado, amiga Ednalva”, que é a praxe dos encantados.

 

(Ednalva, em 2025dez08): Valeu Saracura! Você sabe que a gente não é ninguém quando escreve. Até que alguém diga alguma coisa! Adorei o seu livro e Flor que sou senti cada espinho na carne.  17:00h. 

 

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